Um dos aspectos menos debatidos dentro da agenda de inclusão de pessoas com deficiência é o acesso a serviços de saúde ocular. Crianças com deficiência intelectual e múltipla têm dificuldade de comunicar sintomas visuais, raramente chegam a consultas oftalmológicas por iniciativa espontânea da família e dependem de triagem especializada para ter suas condições identificadas. Em Ferraz de Vasconcelos, o Projeto Visão em Dia chegou à APAE local e produziu diagnósticos que ninguém havia antecipado.
A ação, coordenada pelo Instituto Visão Conectada sob a liderança de Franco Douglas Lima Dias, identificou dois casos de ceratocone em alunos sem histórico oftalmológico anterior, revelou uma criança com miopia que nunca havia sido detectada e entregou 18 óculos a estudantes que não tinham condições financeiras de acessar esse serviço por conta própria. A diretora da APAE, Lara Benute, descreveu o impacto daquela visita com uma clareza que dispensa interpretação: “Nossa APAE realmente precisa de ajuda.”
Por que crianças com deficiência têm mais dificuldade de receber diagnóstico visual?
A barreira do diagnóstico visual para crianças com deficiência intelectual é ainda mais alta do que para a população geral. Essas crianças frequentemente não conseguem descrever o que percebem, não verbalizam que enxergam mal e não associam suas dificuldades a um problema ocular. Professores e familiares, mesmo atentos, raramente chegam sozinhos à conclusão de que há uma causa visual por trás dos comportamentos observados.
O resultado é uma condição que avança em silêncio, sem que ninguém ao redor saiba que está acontecendo. A triagem especializada, como a realizada pelo Projeto Visão em Dia, resolve esse problema porque não depende do relato do paciente. Identifica a condição diretamente, por meio de avaliação técnica, e produz um diagnóstico independentemente da capacidade do aluno de descrever seus sintomas.
O que foi encontrado na ação do Projeto Visão em Dia na APAE?
A triagem realizada pela equipe do programa na APAE de Ferraz de Vasconcelos produziu resultados que ninguém na instituição havia antecipado. Dois alunos foram identificados com ceratocone, doença degenerativa da córnea que exige equipamentos específicos para diagnóstico. Uma mãe presente descobriu que o filho tinha miopia. Ao todo, 18 óculos foram entregues a alunos após avaliações individualizadas.

Para Franco Douglas Lima Dias, que desenvolveu ceratocone por falta de diagnóstico precoce na própria infância, encontrar a mesma condição em crianças daquela instituição traduz com precisão o tipo de intervenção que o Visão em Dia foi criado para fazer. Cada diagnóstico precoce é uma janela de tratamento que se abre antes que a doença avance além do ponto em que a intervenção ainda é mais eficaz.
Como o programa adaptou sua abordagem para o público da APAE?
O atendimento na APAE exigiu adaptações na abordagem da equipe do Projeto Visão em Dia. O público da instituição tem características específicas que demandam paciência, comunicação adaptada e procedimentos que possam ser realizados sem depender da colaboração convencional do paciente. Cada um dos 18 atendimentos realizados naquela ação foi conduzido com atenção às particularidades de cada aluno.
Conforme aponta a trajetória do Instituto Visão Conectada, a capacidade de adaptar a abordagem sem abrir mão da qualidade da triagem é parte do que define o modelo do Visão em Dia. Franco Douglas Lima Dias estruturou o programa com a compreensão de que chegar a públicos diferentes exige mais do que replicar o mesmo procedimento em ambientes diferentes.
O que a experiência na APAE revela sobre inclusão e saúde?
A ação do Projeto Visão em Dia na APAE de Ferraz de Vasconcelos é um exemplo concreto do que acontece quando saúde preventiva e inclusão são tratadas como dimensões do mesmo problema. Os diagnósticos realizados naquela visita não apenas entregaram correção visual a crianças que precisavam. Revelaram condições que estavam avançando silenciosamente em um ambiente que não tinha os meios de identificá-las.
Para Franco Douglas Lima Dias, a chegada do programa à APAE representa a extensão natural de um propósito que sempre foi o mesmo: garantir que nenhuma criança fique sem diagnóstico visual por falta de acesso, independentemente do ambiente em que estuda ou das condições que enfrenta. Inclusão, nesse contexto, não é um conceito. É o serviço que chega até quem precisa.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
