Instituições britânicas precisam preparar prédios históricos, salas de aula e espaços acadêmicos para temperaturas cada vez mais elevadas, enquanto restrições financeiras e custos de manutenção dificultam grandes reformas nos campi.
Universidades do Reino Unido estão enfrentando um novo desafio para manter suas atividades acadêmicas diante do aumento das temperaturas extremas. Depois de um verão de 2026 marcado por cinco ondas de calor independentes e um recorde de 40 dias com temperaturas acima de 30°C, especialistas alertam que muitos campi ainda não possuem infraestrutura adequada para lidar com períodos prolongados de calor.
O problema envolve desde edifícios históricos até construções relativamente modernas. Muitas universidades britânicas possuem campi formados ao longo de décadas ou séculos, combinando prédios com características arquitetônicas muito diferentes. Adaptar toda essa infraestrutura para temperaturas mais elevadas pode exigir investimentos elevados justamente em um momento no qual diversas instituições enfrentam restrições financeiras e grandes volumes de manutenção acumulada.
Durante as ondas de calor deste verão, algumas universidades adotaram soluções emergenciais, como instalar ventiladores portáteis e orientar funcionários e estudantes a utilizar espaços que já possuem ar-condicionado. Especialistas, porém, argumentam que episódios extremos tendem a exigir estratégias de longo prazo, capazes de proteger estudantes, professores e funcionários sem tornar os custos de operação dos campi insustentáveis.
Verão de 2026 aumenta preocupação das universidades
O verão britânico de 2026 colocou a capacidade de adaptação das universidades em evidência. Segundo a Times Higher Education, o país enfrentou seu verão mais quente já registrado, com cinco ondas de calor distintas e 40 dias nos quais as temperaturas ultrapassaram os 30°C. As condições obrigaram instituições a adotar medidas emergenciais para manter ambientes acadêmicos utilizáveis.
O desafio ganha importância porque universidades não funcionam apenas como conjuntos de salas de aula. Os campi possuem laboratórios, bibliotecas, dormitórios, escritórios administrativos, centros de pesquisa, auditórios e espaços destinados a eventos, cada um com diferentes necessidades de ventilação e controle térmico.
Temperaturas elevadas podem afetar tanto o conforto quanto a utilização desses espaços. Ambientes originalmente projetados para um clima mais ameno podem acumular calor durante períodos prolongados, tornando determinadas salas particularmente desconfortáveis para atividades acadêmicas.
Para Trevor Payne, ex-diretor de infraestrutura das universidades de Oxford e Birmingham e presidente do Smart Space Forum, as ondas de calor deixaram de ser acontecimentos que podem ser tratados como excepcionais. A avaliação é de que instituições precisam começar a considerar eventos climáticos extremos como parte permanente do planejamento de seus campi.
Prédios antigos tornam adaptação mais complicada
Uma das maiores dificuldades está na própria composição arquitetônica das universidades britânicas. Muitos campi combinam construções históricas protegidas com edifícios mais modernos e instalações construídas em diferentes períodos, o que impede a adoção de uma única solução para todas as estruturas.
Prédios antigos podem apresentar limitações importantes para instalação de sistemas modernos de climatização. Dependendo do nível de proteção histórica, alterações em fachadas, janelas e estruturas internas precisam seguir regras específicas, tornando reformas mais caras e demoradas.
A Universidade de East London oferece um exemplo dessa situação. Seu campus de Stratford possui um edifício histórico classificado como Grade II, condição que cria desafios adicionais para intervenções estruturais. Ao mesmo tempo, a instituição precisa garantir que os ambientes continuem adequados às atividades de estudantes e funcionários durante períodos de calor.
Mesmo edifícios mais recentes não estão necessariamente protegidos do problema. Especialistas ouvidos pela publicação alertam que construções projetadas para condições climáticas anteriores também poderão enfrentar dificuldades conforme episódios de temperaturas extremas se tornem mais frequentes.
Falta de recursos limita grandes reformas
Transformar completamente os campi exigiria investimentos significativos. Sistemas de climatização, isolamento térmico, sombreamento, ventilação e modernização energética podem representar despesas elevadas quando precisam ser instalados em dezenas ou centenas de edifícios.
Esse investimento acontece em um momento complicado para parte das universidades britânicas. Muitas instituições já enfrentam dificuldades financeiras e acumulam projetos de manutenção que precisam ser realizados, criando uma disputa pelos recursos disponíveis.
A adaptação climática adiciona uma nova camada de custos a essa situação. Reformas que anteriormente poderiam ser consideradas opcionais passam a ganhar importância conforme temperaturas elevadas começam a interferir mais diretamente no funcionamento dos espaços acadêmicos.
William Whyte, professor de história social e arquitetônica da Universidade de Oxford, afirmou que muitas instituições provavelmente ainda não estão preparadas para as consequências do calor extremo. Para ele, combinar os problemas financeiros existentes com novas necessidades relacionadas às mudanças climáticas poderá criar dificuldades significativas para várias universidades.
Dados podem ajudar a identificar salas mais vulneráveis
Uma alternativa defendida por especialistas é evitar reformas indiscriminadas e utilizar informações sobre o funcionamento dos próprios edifícios para decidir onde investir primeiro. Universidades podem identificar quais salas atingem temperaturas mais altas, quais possuem melhor sombreamento e quais concentram maior número de estudantes durante os períodos de calor.
Esses dados permitiriam direcionar recursos para os espaços mais vulneráveis. Em vez de instalar imediatamente sistemas de ar-condicionado em prédios inteiros, as instituições poderiam priorizar locais utilizados intensamente e ambientes onde as temperaturas representam maior problema.
Informações sobre consumo de energia, ocupação das salas e horários das atividades acadêmicas também podem contribuir para esse planejamento. Ao cruzar diferentes conjuntos de dados, gestores conseguem entender melhor como os prédios são utilizados e quais intervenções podem produzir maior impacto.
Essa estratégia é particularmente importante diante das restrições financeiras. Como muitas universidades dificilmente terão recursos suficientes para modernizar todo o patrimônio em pouco tempo, estabelecer prioridades pode permitir adaptações graduais enquanto soluções mais amplas são planejadas.
Novos prédios já começam a considerar clima futuro
Enquanto adaptar edifícios existentes representa um desafio, novos projetos oferecem uma oportunidade para incorporar as mudanças climáticas desde a fase de planejamento. Algumas universidades já estão considerando temperaturas futuras ao desenvolver novas instalações.
A Universidade de East London está adotando essa abordagem em projetos de expansão. Entre eles está seu novo campus de saúde em Newham, cuja construção começou em 2026. Condições ambientais e necessidades futuras dos usuários estão sendo consideradas durante o desenvolvimento.
Projetar edifícios preparados para temperaturas mais elevadas pode reduzir a necessidade de reformas posteriores. Elementos como orientação solar, sombreamento, ventilação, materiais utilizados na construção e eficiência energética podem contribuir para tornar os espaços mais confortáveis durante períodos quentes.
A estratégia também precisa equilibrar adaptação climática e sustentabilidade. A instalação indiscriminada de ar-condicionado, por exemplo, pode elevar consideravelmente o consumo de energia. Por isso, universidades procuram combinar climatização com soluções passivas capazes de diminuir a temperatura dos edifícios.
Calor pode mudar rotina de estudantes e professores
A adaptação não depende exclusivamente de obras. Universidades também poderão precisar modificar a maneira como utilizam seus espaços durante episódios de temperaturas extremas, reorganizando atividades acadêmicas de acordo com as condições disponíveis.
Durante o verão de 2026, algumas instituições direcionaram estudantes e funcionários para áreas climatizadas. Em situações futuras, universidades poderão utilizar informações sobre temperatura e ocupação para transferir aulas, reuniões ou eventos para prédios mais adequados.
Grandes cerimônias também entram nessa discussão. William Whyte relatou que estudantes de Oxford participaram de formaturas durante condições de calor extremo neste verão, situação que demonstra como eventos tradicionais poderão precisar ser adaptados às novas condições climáticas.
A discussão passa, portanto, da infraestrutura para a organização da própria vida acadêmica. Horários, utilização de salas, realização de eventos e comunicação com estudantes podem fazer parte dos protocolos adotados pelas instituições durante ondas de calor.
Universidades também precisam se preparar para outros eventos extremos
Embora o calor seja o foco imediato depois do verão de 2026, especialistas destacam que a adaptação climática dos campi envolve outros riscos. Enchentes, problemas na rede elétrica e interrupções em sistemas essenciais também podem afetar universidades conforme eventos meteorológicos extremos se tornam mais frequentes.
Os riscos variam conforme a localização e as características de cada campus. Instituições próximas a rios ou áreas costeiras podem enfrentar ameaças diferentes das universidades localizadas em regiões densamente urbanizadas, por exemplo.
Além dos prédios, eventos extremos podem interromper transportes, energia, sistemas de tecnologia da informação e abastecimento de água. Isso significa que estratégias de adaptação precisam considerar a continuidade das atividades acadêmicas e não apenas o conforto térmico dentro das salas.
O desafio para gestores universitários será incorporar essas ameaças aos planos de infraestrutura enquanto continuam investindo em ensino, pesquisa e manutenção. A adaptação climática começa, assim, a ocupar espaço permanente no planejamento de longo prazo das instituições.
Por que a adaptação dos campi se tornou urgente?
A experiência do verão de 2026 demonstra que condições anteriormente consideradas excepcionais podem interferir diretamente na rotina universitária. Com cinco ondas de calor e dezenas de dias acima dos 30°C, instituições britânicas precisaram responder rapidamente a problemas que podem se repetir nos próximos anos.
A infraestrutura universitária possui uma dificuldade particular porque grande parte dela foi construída para durar décadas. Um prédio projetado hoje continuará sendo utilizado em um período no qual as condições climáticas poderão ser significativamente diferentes das atuais.
Isso obriga universidades a pensar simultaneamente no presente e no futuro. Instalar ventiladores ou transferir atividades pode resolver problemas imediatos, mas projetos de construção, reformas e investimentos precisam considerar cenários climáticos de longo prazo.
Diante de restrições financeiras e grandes volumes de manutenção acumulada, a transformação não deverá acontecer rapidamente. A tendência é que universidades combinem medidas emergenciais, análise de dados, reformas direcionadas e novos padrões de construção para tornar os campi gradualmente mais preparados para uma realidade na qual ondas de calor deixam de ser exceção e passam a fazer parte da rotina acadêmica.
A reportagem foi publicada pela Times Higher Education em 3 de setembro de 2026 e destaca que o Reino Unido teve cinco ondas de calor no verão e um recorde de 40 dias acima de 30°C, além das dificuldades financeiras para adaptar os campi. (timeshighereducation.com)
Fonte: Times Higher Education — Dealing with extreme heat ‘hugely problematic’ for universities.
